Cena do filme Tainá: Uma Aventura na Amazônia
Divulgação/Europa Filmes
Cena do filme Tainá: Uma Aventura na Amazônia


No dia 19 de abril é celebrado o Dia do Indígena no Brasil, que remete a protestos de povos indígenas do continente americano que, na década de 1940, organizaram um congresso no México, visando propor medidas que protegessem seus povos em todo o território. 

A relação entre cada povo e os animais se difere, de acordo com seus costumes e crenças, mas o comum entre elas é o respeito com a vida, caçando apenas para sobrevivência.

Há uma enorme diversidade, não apenas cultural, mas humana no Brasil e no mundo, que muitas vezes são ignoradas, para criar uma fórmula, ou modelo ideal para todos os povos indígenas, explica o antropólogo Adelino Mendez. É como se todos esses povos tivessem uma mesma cultura ou fossem todos iguais. Somente no Brasil existem centenas de povos indígenas, em diferentes graus de contato, falando quase duas centenas de línguas, algumas ainda desconhecidas, e alguns povos ainda sem contato direto com a sociedade.

Diferentes povos, diferentes costumes

Para Adelino, que estudou povos como os Guajá e Xingu, é importante entender que há diferenças culturais e linguísticas, que são ativas e altamente produtivas e importantes. Cada povo indígena possui uma interação diferente com os animais. Os Guajá, por exemplo, se destacam por sua relação com os animais. Nômades, caçadores e coletores, falantes da língua Tupi-Guarani, pertencem a florestas pré-amazônicas maranhenses, e sua relação com os animais é muito afetuosa, diferente de outros povos, pois eles também são parte da alma da floresta. A sua história conta que surgiram da madeira, fazendo com que tenham uma relação muito forte com a floresta.

Os Guajás vivem na fronteira do Pará com o Maranhão, estão habitando a terra indígena Awá, Caru e Arariboia. Essa relação faz com que precisem caçar diariamente para sobreviver. Entre eles há um código de caça, uma maneira para retribuir aquilo que a floresta dá. Quando se mata um macaco, por exemplo, se houver um filhote, os indígenas costumam criá-lo como parte da família. É bastante comum ver mulheres amamentando animais como macacos, saguis, porcos-do-mato.

“Esse é um fator muito presente entre povos caçadores e coletores. Eles acreditam que esses filhotes possam vir a ser uma nova vida de um ente querido”, explica o antropólogo.

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Relação com os xerimbabos

Família de Tibohá Guajá, com sua mulher, filho e o xerimbabo, um filhote de porco-do-mato.
Adelino Mendez
Família de Tibohá Guajá, com sua mulher, filho e o xerimbabo, um filhote de porco-do-mato.


Possuindo uma intimidade interessante entre a caça e o filhote da caça. Esse animal, conhecido como xerimbabo - palavra da língua tupinambá, que significa “animal de criação/estimação". Com o xerimbabo eles têm um comportamento único, com carinho e respeito pela vida daquele filhote, por serem responsáveis pela morte da mãe do animal, como forma de respeito e gratidão eles o tiram da situação de fragilidade e o criam, como uma espécie de troca com a natureza.

Adelino menciona um estudo do antropólogo francês, Philippe Descola, que ajuda a compreender o código de caça amazônico.

“A reciprocidade quer que toda vida animal seja compensada; a predação implica que nenhuma contrapartida seja oferecida pelos humanos contra uma vida animal; finalmente, a dádiva significa que os animais oferecem sua vida aos humanos de maneira deliberada e sem nada esperar em troca”.

Cuidar do animal que teve sua mãe morta é a forma de retribuir esse sacrifício, garantindo a vida do filhote órfão. Os indígenas se tornam, de certo modo, pais desses animais, com as mulheres amamentando os filhotes.

Menino Guajá com seu xerimbabo
Adelino Mendez
Menino Guajá com seu xerimbabo

Alto Xingu

Outros povos possuem interações diferentes com os animais, os povos do Alto Xingu, por exemplo, criavam há alguns anos, em uma espécie de gaiola cônica, no centro das aldeias, um gavião-real, como uma espécie de totem vivo. Sendo considerado o dono do fogo.

“Um pássaro fantástico na concepção mitológica, seria um titã de tempos passados, gigantesco, e ali eles o criavam como se fosse um símbolo vivo”, explica Adelino.

Havia uma relação de respeito e medo, pela história, contudo, a partir dos anos 1990, se tornou mais difícil essa criação, pois era necessário sacrificar animais diariamente para alimentar a ave. A relação entre esses povos e o gavião-real, era de muito orgulho. A ave considerada a mais poderosa das florestas sul-americanas, surgia como um ser mitológico, algo místico.

Eles também criam macacos, cutias, araras, mas com uma interação menor de outros povos. Você não verá no Alto Xingu mulheres amamentando, filhotes de animais, como fazem os Guajá, ou os Huaorani, nas Matas do Equador. Entre cada povo existe uma diferença enorme na forma de tratar os animais.

Outros povos criam animais como papagaios e araras e eles também os alimentam com a boca, dando banana, como um ato de carinho. Também ocorre com animais como macacos, por exemplo, mas pássaros são mais comuns nesse sentido. Essa prática é ainda mais comum em povos que têm um menor contato com a sociedade, que vivem em regiões mais isoladas, mantendo uma maior dinâmica cultural.

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