Especialista aponta riscos da criação de cães albinos no Brasil
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Especialista aponta riscos da criação de cães albinos no Brasil

A geneticista Fabiana de Andrade, cofundadora e chefe da Petgenoma, alertou sobre os perigos envolvidos na popularização de bulldogs franceses albinos  - condição genética rara caracterizada pela ausência ou redução de melanina, o pigmento que dá cor à pele, cabelo e olhos.

Segundo ela, o aumento da procura desses cães está diretamente ligado à influência das redes sociais e à desinformação .

A difusão de conceitos errados acaba sendo muito maior do que a difusão do que é correto e comprovado ”, afirmou Fabiana em entrevista ao Canal do Pet . Para ela, o impacto de influenciadores digitais na escolha dos animais de estimação tem impulsionado a busca por características estéticas incomuns, sem que o público compreenda os riscos envolvidos.

Esses cães, muitas vezes chamados de “ exóticos ”, atraem por serem diferentes. No entanto, segundo a especialista, a aparência fora do padrão pode esconder sérios problemas de saúde.

“Cães exóticos não seguem padrão da raça”

De acordo com Fabiana, o termo “ exótico ” é usado como apelo de marketing. O que parece uma característica rara e sofisticada, na verdade, indica que o cão está fora do padrão da raça.

Muitas vezes, esses animais são o resultado de cruzamentos com outras raças, mesmo que isso tenha acontecido há gerações. Ou seja: o comprador paga mais caro para adquirir um cão que na verdade não é da raça que foi escolhida .”

No caso do albinismo , a situação é ainda mais delicada. Essa mutação genética não é característica de nenhuma raça canina. A condição é recessiva e rara, mas pode surgir naturalmente em algumas linhagens.

Criadores éticos evitam reproduzir cães portadores da mutação. Eles realizam testes genéticos preventivos e interrompem cruzamentos de pares identificados como transmissores do gene albino.

Mesmo assim, há criadores que fazem o oposto. “ Ao descobrir algum cão portador de albinismo, acasala este cão com um parente próximo ”, explicou Fabiana.

O albinismo afeta diretamente a saúde do animal. Os principais problemas são:  surdez, dificuldades de visão e maior risco de câncer de pele .

Segundo Fabiana, o albino não é apenas um cão de pelagem branca. “ É aquele que não produz o pigmento chamado melanina em nenhum local do corpo ”, explicou. A ausência de melanina afeta órgãos como olhos e ouvidos, além de reduzir a proteção natural da pele.

Estas células têm função importante no ouvido interno e nos olhos, e por isso estes cães têm surdez e problemas de visão. ” A exposição ao sol também representa um risco maior, exigindo cuidados como o uso de protetor solar canino .

No caso dos bulldogs franceses , os riscos se multiplicam. Além da condição albina, a raça já possui predisposição genética a doenças respiratórias e ortopédicas. Criadores responsáveis evitam o agravamento desse quadro com testes específicos e seleção criteriosa.

Já os que priorizam modismos, segundo Fabiana, não seguem nenhuma dessas boas práticas. “ Muito menos estarão preocupados com outros problemas de saúde ”, completou.

Cão albino
Reprodução Redes Sociais
Cão albino


Ausência de regulação favorece cruzamentos de risco

No Brasil, não há uma legislação específica que regule a  reprodução de cães com mutações genéticas como o albinismo.

Ainda assim, Fabiana ressalta que a prática pode ser enquadrada como maus-tratos . A Lei de Crimes Ambientais e a resolução nº 1236/2018 do CFMV apontam como infração o acasalamento com alto risco de doenças congênitas.

Outro ponto crítico é a falta de controle de pedigree entre os chamados criadores de cães exóticos. Como esses animais não podem ser registrados oficialmente, não há rastreio do grau de parentesco.

Isso impossibilita qualquer tipo de melhoramento genético ”, alertou a geneticista. A prática favorece a consanguinidade, o que potencializa problemas de saúde e diminui a expectativa de vida dos animais.

cachorro albino
Reprodução/ Pinterest
cachorro albino


Testes genéticos podem evitar sofrimento dos filhotes

Para evitar a reprodução de cães doentes, Fabiana recomenda testes genéticos específicos. No caso dos bulldogs franceses, devem ser feitos exames para avaliar o grau de braquicefalia, além de radiografias de coluna para detectar malformações. Ainda assim, esses cuidados não são regra entre os criadores brasileiros.

Doenças hereditárias como cistinúria, catarata precoce e hérnia de disco também devem ser investigadas antes da reprodução.

Valores altos muitas vezes pagos especialmente para ‘cães exóticos’ seriam perfeitamente justificados nos casos em que o criador tivesse realizado todas estas avaliações ”, declarou.

Além disso, Fabiana reforça que pelagem branca por si só não define um cão albino. Raças como Samoieda e Husky Siberiano têm pelagem clara e não enfrentam os mesmos riscos.

O albinismo afeta todo o corpo dos pets
Reprodução
O albinismo afeta todo o corpo dos pets


Tutores devem ter cuidados extras com cães albinos

Quem já tem um cão albino precisa adotar cuidados especiais. O primeiro deles é evitar a exposição solar, especialmente em horários de pico.

Esses animais precisam usar protetor solar específico, sob orientação veterinária. Lesões na pele devem ser analisadas rapidamente por um profissional da área.

Infelizmente, os problemas de visão e audição não podem ser revertidos. Por isso, o ideal é que os criadores evitem que filhotes albinos nasçam.

A única ação que estes tutores podem ter depois de já terem adquirido um cão albino é o cuidado com relação à exposição ao sol ”, reforçou Fabiana.

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